Um “monstro” desenhado para as novas regras
O AMR26 chegou atrasado no shakedown, como quem sabe que todo mundo está esperando para ver apenas ele sair da garagem – e a equipe abraçou esse protagonismo. Trata-se do primeiro Aston Martin concebido sob comando direto de Adrian Newey, agora também como chefe técnico e figura central do projeto esportivo, e o carro foi pensado desde o zero para o novo pacote de regras: mais eletrificação, menos arrasto e carros menores.
Na pista, Fernando Alonso completou pouco mais de 60 voltas em Barcelona, em um programa focado em confiabilidade e correlação de dados, enquanto Lance Stroll abriu o caminho no dia anterior, num shakedown claramente mais voltado a entender o conceito do que a aparecer no topo da folha de tempos. Dentro dos boxes, a leitura é de alívio e entusiasmo: o carro nasceu complexo, mas “sem dramas” mecânicos importantes, algo que a própria Aston Martin fez questão de sublinhar nos comunicados oficiais.
Nariz pelicano, sidepods tubulares e chão “nu”
Visualmente, o AMR26 parece um híbrido de ideias de Red Bull, McLaren e até conceitos antigos da Williams, mas tudo reinterpretado com o toque de Newey. O nariz largo em forma de pelicano trabalha em conjunto com entradas de ar laterais que mais parecem tubos inclinados, lembrando de longe o conceito da Red Bull, mas aqui descendo apenas até a metade, deixando uma grande área de assoalho exposta para alimentar o difusor.
Essa área livre entre o difusor e a roda traseira virou assunto entre engenheiros rivais no paddock, porque dialoga diretamente com o novo cenário aerodinâmico sem asa de beam na parte de trás. Ao concentrar parte da massa do sistema de refrigeração na região superior e central do carro – algo sugerido pelo desenho das entradas laterais e pelo grande duto de saída sob o cockpit – a Aston Martin parece apostar em um centro de pressão mais limpo e uma plataforma aerodinâmica muito sensível, típica dos carros campeões de Newey.
Suspensão traseira no limite: o “substituto” da beam wing
Se há um ponto que virou tema de falatório entre as equipes logo no quarto dia de Barcelona, é a traseira do AMR26. Os braços superiores da suspensão traseira tipo pushrod foram montados incrivelmente altos, ancorados na região onde se encontra o suporte central da asa traseira – algo que lembra soluções já vistas em Red Bull e Williams no começo da década passada, mas levado a um extremo que ninguém havia tentado neste nível.
Mesmo sem poder ter perfil de aerofólio, o posicionamento e a inclinação desses braços, combinado com o rake e o fluxo que sai do difusor, parece projetado para resgatar parte da função aerodinâmica da antiga asa de beam agora proibida. Em outras palavras: a Aston Martin encontrou uma forma de usar a própria suspensão como “ponte” de fluxo entre o difusor e a asa traseira, o que explica por que tanta gente passou mais tempo tirando foto da traseira do carro do que cronometrando voltas em Barcelona.
Na frente, a asa do shakedown é bem mais simples do que as vistas em outros carros, quase “genérica”, o que indica fortemente que não é a especificação definitiva: faz sentido, já que Newey historicamente prioriza a arquitetura do carro, deixando asas e detalhes de carroceria para evoluírem ao longo da temporada.
Honda, Newey, Alonso: a tríade que assusta o grid
No coração do AMR26 está o novo motor Honda RA626H, desenvolvido especificamente para o ciclo de 2026, com foco em 50% de potência elétrica, uso de combustíveis sustentáveis e sem MGU-H – uma arquitetura que muda completamente o equilíbrio entre ICE e bateria. Os japoneses trataram o lançamento do power unit como um manifesto: querem ser referência de inovação e performance, e a Aston Martin é a vitrine ideal para isso.
Do lado inglês, há outra estreia importante: a Aston Martin voltou a fabricar sua própria caixa de câmbio, o que dá mais liberdade para Newey desenhar o layout traseiro e integrar suspensão, câmbio e motor em um bloco aerodinamicamente mais puro. Dentro da garagem, Alonso teria sido um dos mais entusiasmados com o “pacote inteiro”: motor novo, conceito agressivo e aquela sensação rara de estar pilotando um projeto com potencial de ditar tendência no regulamento – algo que ele não sente com tanta força desde a era Renault campeã.
Ao mesmo tempo, rivais já sussurram que a Aston corre o risco de ter criado um carro “difícil de acertar”, muito sensível a vento e nível de energia da bateria, algo que sempre acompanha conceitos de alto pico aerodinâmico. É o preço de tentar pular etapas na hierarquia da Fórmula 1: ou você acerta de forma estrondosa, ou passa a temporada inteira domando um monstro imprevisível.
O impacto para o campeonato de 2026
Em um cenário em que Ferrari, Mercedes e a própria Red Bull ainda parecem mais conservadoras em algumas áreas-chave, o AMR26 coloca a Aston Martin no centro das conversas sobre quem pode se tornar a grande surpresa da nova era. Se o conceito funcionar em pistas de baixa, média e alta e a Honda entregar o que prometeu em eficiência elétrica, não é exagero imaginar Alonso brigando por vitórias e até entrando na conversa de título, especialmente se o equilíbrio de forças for embaralhado pelo regulamento.
Mas o efeito colateral é igualmente grande: qualquer problema crônico – seja no gerenciamento de energia, seja em janelas de acerto – pode transformar esse carro revolucionário em uma dor de cabeça parecida com o que a Mercedes viveu com o W13 na era do efeito solo. De qualquer forma, uma coisa é certa: todo o paddock vai acompanhar de lupa cada volta do AMR26 em Bahrain, Jeddah e Suzuka, porque ali pode estar o molde do que a Fórmula 1 de 2026 será nos próximos anos.
Agora é com você, leitor do Paddock Vip: o AMR26 é o início de uma hegemonia verde ou só mais um risco extremo de Newey que pode virar tema de longas discussões no bar do paddock? Deixe sua opinião nos comentários e siga acompanhando o site para cada bastidor, rumor e murmúrio sobre o carro mais falado deste novo regulamento.
